É extremamente difícil tomar decisões no presente sem saber o que acontecerá no futuro. Mas, se não fizermos nada, podemos acabar chorando por decisões que devíamos ter tomado mas simplesmente não tivemos coragem o suficiente.
...
Minha prima ia casar, e, como de costume, toda a família estava feliz com a ocasião. Minhas tias, empolgadas, gritavam para tentar decidir os arranjos, flores e outros detalhes da cerimônia. Tudo parecia lindo!
E foi aí que minha mãe teve uma ótima ideia: por que não aproveitar a ocasião para fazer um casamento duplo?
O sonho dela sempre foi planejar meu casamento. E por que não agora? Eu namorava há tanto tempo, já estávamos felizes juntos, e nos sentíamos a vontade um com o outro. Era só oficializar, certo?
Concordei em silêncio. Estava confusa demais, ou medrosa demais, para tomar qualquer decisão.
Então, as semanas passaram.
Quando dei por mim, estava no ensaio do casamento. O local escolhido foi um salão dentro de um shopping, pertinho do cinema. Não sei porque escolheram aquele lugar, parecia bem inapropriado.
O fato é que eu estava ali, sentada no último banco ao lado da minha prima. As duas vestidas de noiva, com um vestido branco estonteante. Ela estava com um coque bem trabalhado, com pérolas enfeitando o penteado, e estava com um brilho daqueles que só vemos em pessoas verdadeiramente felizes.
Eu não estava assim. Apesar do vestido gracioso, meu cabelo estava amarrado em um penteado simples, feito em casa, prendendo a metade superior em um rabo. Com os cabelos que caíam sobre meus ombros, minha mãe tinha feito diversas tranças, enquanto falava empolgada comigo sobre a cerimônia.
Nos bancos da frente, os noivos aguardavam o início do ensaio. Sem surpresas, parece que a tradição do noivo não ver o vestido antes da hora havia sido esquecida.
E, com o passar do tempo, os convidados começaram a chegar. Aos poucos, o pânico me subiu a garganta. Olhei para ele: meu amigo, confidente, mas também desconhecido.
E aquela alegria que sobe seu corpo simplesmente por estar perto da outra pessoa? Havia me abandonado a tanto tempo...
Eu não queria aquilo.
Eu definitivamente não queria aquilo.
Como deixei chegar nesse ponto? Olhei ao meu redor e os convidados continuavam chegando, todos alegres por participar desse momento feliz.
Sem saber o que fazer, chamei minha prima para conversar. Precisava falar com alguém.
Enquanto saíamos do local da cerimônia, algumas pessoas vieram nos cumprimentar, nos parabenizando.
E eu o vi. Sabia que estava pensando nele o tempo todo, mas não queria admitir. Será que era por culpa dele que não queria casar? Mas e se eu terminasse tudo e nada acontecesse entre nós?
Não, eu sabia que não era por ele. Era por mim. Só era mais fácil projetar a culpa em outra pessoa. As vezes precisamos sentir de novo para perceber que havíamos parado de sentir.
- Eu não quero isso. - Falei, já com a voz trêmula para minha prima. Ao ouvir minhas próprias palavras no ar meus olhos se encheram d'água.
Meu Deus, como deixei chegar nesse ponto?! As lágrimas escorriam incessantemente enquanto esperava algum conselho.
Calma e sensata como sempre, minha prima não pareceu se surpreender com a notícia.
Com um sorriso confortador, ela disse:
- Bom, você tem que contar isso para sua mãe.
Minha mãe! Ela era a pessoa mais empolgada com esse casamento, talvez mais que o noivo.
Minha prima foi chamá-la enquanto eu, desesperada, tentava enxugar minhas lágrimas e encontrar o que dizer.
Como deixei chegar nesse ponto?
Minha mãe chegou feliz, com um ar de quem já esperava aquela reação. Acho que ela pensou que era só uma crise de noiva nervosa antes da cerimônia. Certamente não esperava o que veio a seguir:
- Mãe, eu não quero isso! Não quero me casar, não quero este lugar, não quero esse penteado, e muito menos essas traças. - Num gesto brusco, desfiz as tranças que ela fez e soltei todo o penteado, ficando com o cabelo cheio e frizado no jardim de inverno. Enquanto falava, as lágrimas insistiam em escorrer pelo rosto, e minha voz falhava a cada nova frase. - Me desculpa! Mas eu não quero! Não posso! Quero outra vida! Quero viver outras coisas, eu não quero isso.
...
Acordei com os olhos ardendo. Devo ter chorado de verdade...
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